Começo
Mote. Estrofe ou verso que introduz um poema. Ponto de partida para o improviso em um desafio poético. Formulação sintética que expressa um conjunto de proposições. Começo de conversa.
Esta revista propõe, a cada número, uma palavra que serve como pontapé, desculpa ou impulso para colocar em relação diferentes assuntos, experiências e formas de conhecimento. O mote funciona como uma faísca que, em sua multiplicidade de sentidos, instiga autores e autoras a escrever sobre temas que conhecem bem, de um modo mais livre do que estão habituados.
Forma aberta de escrita reflexiva, o ensaio dispensa a adesão a um único registro ou linguagem. Pontas soltas, incertezas, hesitações, digressões e notas pessoais são bem-vindas e deixam entrever dimensões frequentemente apagadas pelo formalismo acadêmico e pela linguagem especializada.
O ensaio não abdica do rigor. A reflexão sistemática sobre um assunto não exclui o engajamento subjetivo nem a atenção à forma. Ao contrário, supõe a articulação entre essas dimensões. No cotidiano da prática científica e investigativa, essa negociação sempre ocorre, ainda que de modo invisível ao público. Aqui ela é trazida ao primeiro plano. A produção de conhecimento também se faz com improviso, incompletude, imaginação e emoção.
Ser contemporâneo é ser capaz de, compartilhando uma época com outros, construir distanciamento crítico em relação a ela. Trata-se de uma posição de incômodo, estranhamento e desajuste, a partir da qual se tornam visíveis as formas, tensões e impasses do presente. Os ensaios da Mote exploram essa relação com o nosso tempo e se contrapõem tanto à premência da conjuntura quanto à exigência de respostas imediatas. Partem de situações, experiências, disputas, práticas e questões emergentes e apresentam novas possibilidades de leitura sobre elas.
No primeiro número, escolhemos começar pelo começo. O primeiro mote propõe a investigação de pontos de partida, gêneses, origens. Pensar sobre começos implica também o confronto com os fins e as conclusões, como fatos, projeções ou contrapartes necessárias. Os ensaios escritos e visuais deste número enfrentam ambiguidades, indeterminações, inversões e múltiplos começos: do universo, das pessoas, de ideias, políticas e técnicas.
